Tédio

Tédio profundo e a falta de silêncio

Existe um tédio superficial — o de esperar numa fila, o de um filme ruim — que passa assim que o estímulo muda. E existe um tédio mais profundo, que não desaparece quando você troca de atividade, porque ele não é sobre falta de estímulo. É sobre falta de silêncio.

Vivemos num tempo em que quase todo espaço vazio é preenchido rapidamente: uma notificação, um vídeo curto, mais uma aba aberta. O silêncio — no sentido de um momento sem produção, sem consumo, sem destino definido — se tornou raro. E é justamente nesse tipo de silêncio, sustentado por algum tempo, que certas coisas conseguem finalmente acontecer: um pensamento que não tinha espaço para se formar, um sentimento que estava sendo constantemente interrompido antes de ser sentido por completo.

Quando o tédio aponta para outro lugar

Quando alguém chega à terapia falando de um tédio profundo, quase sempre não é sobre a rotina em si — é sobre a sensação de que nada do que está sendo feito realmente toca a pessoa. O tédio, nesse caso, não é o problema: é o sintoma de uma vida organizada em torno de estímulos, e não de sentido.

Isso explica por que preencher a agenda com mais atividades raramente resolve. O tédio profundo não se cura com mais coisas para fazer — ele pede o contrário: espaço, pausa, e a disposição de ficar, por um tempo, sem saber exatamente o que fazer com esse espaço vazio.

Recuperar a pausa

Parte do trabalho terapêutico aqui é reaprender a tolerar esse vazio inicial, sem preenchê-lo automaticamente — porque é dentro dele que normalmente aparece o que realmente precisava ser sentido.

“No nosso tempo não existe silêncio, e as coisas só acontecem com o silêncio e pausas.”